"A mulher seminua e o ódio ao Ocidente", O Globo, 05/04/2004 | Artigos - Ali Kamel 

Autor: Ali Kamel

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"A mulher seminua e o ódio ao Ocidente", O Globo, 05/04/2004

Ontem, tentei mostrar como a Irmandade Muçulmana, criada em 1928 por Hassan Al-Banna, lançou as bases teóricas do terrorismo islâmico contemporâneo, ao estabelecer que é obrigação de todo muçulmano lutar, sem medo da morte, para que o islamismo volte a um idealizado estado de pureza dos tempos do Profeta. Com o slogan "a morte na luta por Deus é a nossa grande esperança", o objetivo do grupo era reviver o califado, com a reunião de todas as nações muçulmanas reconvertidas. Apesar da repulsa ao Ocidente, a Irmandade acenava, porém, até o fim da década de 1940, com uma espécie de compromisso. No manifesto "Na direção da luz", Al-Banna disse: "As pessoas imaginam que a nossa maneira muçulmana de viver nos desconecta do Ocidente. E isso só serve para perturbar nossas relações políticas com eles justamente agora que estávamos para estabelecê-las. Nada é mais fantasioso. Porque os porta-vozes do Ocidente sempre disseram que todas as nações são livres para estabelecer seus próprios caminhos, desde que não infrinjam os direitos dos outros." Mas tudo isso iria mudar ainda na década de 50, com a aparição de Sayyid Qutb, principal ideólogo da Irmandade depois do assassinato de Al-Banna pelos agentes secretos do governo egípcio. Na verdade é Qutb, e não Al-Banna, quem é hoje o principal mentor dos atuais terroristas.

A história de Sayyid Qutb é a de um convertido. E a conversão ao radicalismo muçulmano se deve em grande parte aos Estados Unidos. Egípcio como AlBanna, Qutb passou a juventude entre a intelectualidade do Cairo, ambicionando uma carreira de escritor. Embora sempre muito religioso, demorou a ligarse à Irmandade. Formou-se em educação e atuou como inspetor de escolas. Mais tarde, já trabalhando para o Ministério da Educação, foi mandado, em 1948, para os EUA, a fim de se inteirar dos métodos educacionais e dos currículos americanos. A idéia do governo egípcio era abrir-lhe os horizontes, mas o resultado foi trágico. Ele passou dois anos e meio nos EUA: Nova York, Washington, Colorado e Califórnia. A experiência certamente mudou a vida dele, mas teve uma influência ainda maior sobre as nossas. Já na viagem de navio, de Alexandria a Nova York, ele enfrentou a situa- ção mais embaraçosa de sua vida: à porta de sua cabine, uma mulher seminua e bêbada tentou seduzi-lo. Ele não era nenhum garoto, tinha já 42 anos de idade, mas o efeito daquele encontro o marcou para o resto de seus dias (ele permaneceu solteiro até a morte). Sem nenhuma base na realidade, anos mais tarde ele disse ao seu biógrafo Abd al-Fattah Khalidi que a mulher seria uma agente americana, cuja missão era corrompê-lo. John Calvert, professor de histó- ria da Creighton University, em Nebrasca, estudou a passagem de Qutb pelos EUA em seu artigo "O mundo é um menino sem modos: a experiência americana de Sayyid Qutb" (o título é uma referência a um curto ensaio de mesmo nome que Qutb escreveu nos EUA, dizendo que o mundo era um menino sem modos por ter ignorado os dons do espírito que o Islã legou à Humanidade). O próprio Qutb escreveu artigos e cartas sobre sua experiência americana, anos mais tarde reunidos por seu bió- grafo em um volume chamado "América por dentro: através dos olhos de Qutb".

Qutb ficou pouco tempo em Nova York, mas o suficiente para detestá-la, classificando-a como uma grande oficina barulhenta e estrepitosa. Os nova-iorquinos tinham, segundo ele, a mesma sorte dos pombos que inf